“Nunca foram publicados tantos livros de qualidade em um curto espaço de tempo”

postado por breno @ 2:08 PM |
25 de janeiro de 2010

De Feira de Santana, Rafael Rodrigues trabalha como editor-assistente da revista eletrônica Digestivo Cultural e escreve no blog Entretantos.

Em entrevista concedida ao Caderno 2+, Rodrigues comenta sobre literatura & internet:

CADERNO 2+: A internet provocou mudanças significativas no texto literário a ponto de seu reflexo aparecer nos livros de papel?

RAFAEL RODRIGUES: Acredito que não. A internet é só mais um canal de divulgação, mais uma plataforma de publicação. Acontece de a linguagem virtual ser utilizada em uma obra ou outra, mas isso não chega a ser algo tão significativo. É apenas um reflexo dos tempos, um artifício que o autor pode utilizar. Seria impossível escrever uma obra séria com a linguagem abreviada da internet, por exemplo. Aliás, impossível, não, porque é possível. Mas seria ridículo. Alguém pode dizer que posts de blog são um novo gênero literário. Se for assim, Baudelaire é um visionário, pois, a contar pelo tamanho, seus “Poemas em prosa” seriam posts…

2+: O falecido crítico José Onofre falava que a literatura sofreu uma mudança no pós-Segunda Guerra. Em um artigo, ele chegou a escrever: “Antes um escritor era lido por se capaz de nos levar a pontos desconhecidos da emoção e do entendimento das coisas. Hoje, ele é um igual e apenas partilha conosco sentimentos que já conhecemos.” Para Onofre, o artista não tem mais a dimensão do perigo – todos estão a salvo, mesmo sofrendo a falta de gesto. A paixão se resume a uma sensualidade vazia e a coragem dá lugar ao estoicismo. “O que existe é uma organização das palavras sem o sentimento verdadeiro que deveria estar por trás. Falta aquela sensação que se tem diante de uma casa escura, uma estrada vazia, um cheiro de fogo. Uma literatura como se produz hoje provoca a inevitável sensação de ter saído do word processor”. Gostaria de saber se você compartilha dessa visão. Se não, que cenário você enxerga na produção literária?

RR: Tragédias de grande magnitude ou determinados períodos delicados da história da humanidade sempre provocaram mudanças não apenas na literatura, mas em todos os braços da arte. É só ver o movimento punk, na música, ou o concretismo, nas artes plásticas. Na literatura, basta observar as obras norte-americanas pós-depressão, ou obras (não apenas, mas principalmente) europeias pós-guerras, ou ainda brasileiras, pós-ditadura. É certo que, com o aumento de livros publicados, há uma dificuldade maior em se encontrar obras de grande qualidade, mas nos últimos anos isso vem mudando. A literatura brasileira está atravessando seu melhor momento desde a virada do milênio. Nunca foram publicados tantos livros de qualidade em um curto espaço de tempo. De 2008 para 2009 foram publicadas algumas das melhores obras dos últimos 10, 15 anos. Novos autores talentosíssimos surgiram nos últimos anos, enfim, o momento é muito bom, e certamente mais coisa boa vem por aí.

2+: Você é um otimista dos ebooks e dos seus leitores?

RR: Sim, ainda mais com os novos readers, como o Kindle. Aparelhos como ele serão mais uma opção para os leitores, além dos livros de papel. Não creio que um substituirá o outro; acredito na coexistência. Determinado público optará por ler mais em aparelhos eletrônicos – muito provavelmente pessoas que trabalham com livros. Mas o livro de papel continuará tendo seu público. Até porque há pessoas que não abrem mão do livro, de sentir sua textura, seu cheiro, virar suas páginas…
2+: Recentemente falamos sobre crítica literária feita para internet. Gostaria de saber se, para você, o formato/suporte impõe diretrizes; isto é, há diferenças numa crítica escrita para o Digestivo Cultural e uma feita para um suplemento literário?

RR: Ao menos no Digestivo, não há diferença alguma. Até porque as colunas que publicamos têm, se não 5 mil toques ou mais, algo muito próximo disso. É uma das exigências do site. Há outros veículos virtuais que optam por textos breves, superficiais, mas não é essa nossa intenção. Preferimos publicar textos que possam abordar mais aspectos de uma obra de arte, e não apenas notas sobre eventos ou produtos culturais. Acreditamos – e o número de leitores do Digestivo é uma prova disso – que há um enorme público interessado em textos não muito breves, na internet. Mas também temos o espaço para textos menores, que é o Blog do Digestivo.

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