Digitália: veja programação e entrevistas com Gilberto Gil e Criolo
postado por chico @ 8:51 AMExistem dois verões em Salvador. Há o verão “mais do mesmo” – que vai bem, obrigado. E há o verão que traz novidades relevantes de fato.
E o evento da temporada que melhor se encaixa nesse perfil começa hoje: é o Digitália – novo até no formato, meio congresso acadêmico, meio festival de música.
Idealizado pelo Doutor em Comunicação / músico / agitador cultural Messias Bandeira, o Digitália tem um tema central, que é “celebrando a primeira década de música on line”.
“A razão de ser desse tema é que nenhum outro segmento da cultura foi tão afetado quanto a música”, justifica Messias.
“Ela foi ao limite das questões de compartilhamento. A internet mudou de fato toda a cadeia da produção musical”, percebe.
Abaixo, leia entrevistas com o palestrante Gilberto Gil (sexta-feira, dia 3, no ICBA) e o rapper Criolo, cujo álbum Nó Na Orelha (2011) foi apontado em diversas publicações como melhor disco do ano. Criolo encerra o Digitália domingo, em show na Concha Acústica.
GILBERTO GIL:
CADERNO 2+: O senhor foi um dos primeiros artistas a falar em internet, ainda lá em meados dos anos 1990, com sua música Pela Internet. Como se sente hoje olhando para esse cenário atual, com o SOPA (Stop Online Piracy Act) etc?
GILBERTO GIL:A internet cresceu, transbordou como um rio. O Pierre Levy tem uma frase que se refe a Heráclito, a um de seus postulados filosóficos básicos: “o rio de hoje, não contente de correr sempre, também transborda”. É exatamente como a internet. Para lá convergiu todo o conhecimento, a biblioteca mundial, todo o mundo pictórico, a TV, o rádio, o cinema, tá tudo lá. É o grande universo dos acervos culturais mundiais, todas as línguas estão lá, tudo. Nada hoje vive sem a internet. E como ela é um conjunto de técnicas de um dinamismo extraordinário, ela impõe esse dinamismo a todos os outros campos: o conhecimento técnico, científico, filosófico, antropológico, matemático, químico, físico, tudo vai para lá. É a vida cultural, o grande receptáculo de toda a vida mental e intelectual humana. Isso imprimiu uma velocidade enorme as interações dos campos de cooperatividade, e ao mesmo tempo, estabelece um padrão novo para a subjetibvidade individual, cada indivíduo com suas opiniões e a vivacidade de seus caráteres.
2+: O evento celebra a primeira década de música on line. Qual o seu balanço desses últimos dez anos?
GG: Estamos com quase 100 anos de aviação comercial. O balanço é positivo? A TV, a revolução industrial. A internet se compara a isso: é uma realidade estabelecida, então há positivo e negativo. Um ponto a ser discutido é a famialirização dos públicos da internet com ese rio de Heráclito que ela é, já que para lá se transferem para lá todas essas promessas, ameaças, tudo. A questão da pornografia, da pirataria todas as coisas, entre aspas, negativas, ligadas as simetrias éticas e morais. Tudo isto está lá, fazendo sentido na net. Ao mesmo tempo há toda uma coisa positiva, de bibliotecas monstruosas, laboratórios enormes. Tudo isso que está lá e possbilita a milhões, ou melhor, a bilhões de pessoas dinamizarem processos de aprendizado e conhecimento. O balanço é positivo e negativo, como a vida é.
2+: E como o senhor avalia o impacto do compartilhamento livre da música?
GG: Isso tem variado muito no mundo inteiro, em países de primeiro mundo, como Alemanha e Estados Unidos etc, o impacto da internet já é muito grande na vida musical. Inclusive no próprio campo da criação, da produção, da difusão, em todos esses campos o impacto é muito grande. Isso nos países aonde o acesso a internet em banda larga de boa qualidade já está mais universalizado e democratizado. Em seguida, vai variando a escala de presença desse impacto conforme você vai descendo na escada do acesso, nos paises de difusão média, como o Brasil, que está com uma classe média em ascensão, com uma chegada ainda incipiente da banda larga, em tudo isso você tem impactos claros aí, com grupos de criadores e artistas que vivem e trabalham e se articulam atraves da internet, que criam seus circuitos e sistemas produtivos atraves dela. Esse Fora do Eixo mesmo, é um movimento que junta muita gente – e festivais, estúdios, selos, rádios, é muita coisa, um circuito enorme. O alternativo independente via internet já responde por 50% ou mais da produção musical brasileira. E em outros lugares esse índice é maior ainda.
2+: Quase todo mundo já viu um show de Gilberto Gil, mas uma palestra é mais incomum. O que podemos esperar de sua fala? O que te atraiu para o evento?
GG: Vou abordar tópicos ligados ao tema, as novidades dos aspectos positivos e negativos em relação a internet, ao ciberespaço, a convergência de tecnologias. São temas contemporâneos, né? Especialmente o advento da internet, que é um grande universo que soma tudo o que se imaginou de vida cultural, como o rio que transborda.
ENTREVISTA: CRIOLO
Caderno 2+: Qual a expectativa para essa estreia nos palcos em Salvador?
Criolo:Olha, em 23 anos de carreira, eu nunca tive essa oportunidade que tenho agora de cantar em Salvador. Cara, meu coração tá feliz demais por essa oportunidade. E já percebi que vou aprender muito aí, é uma grande honra, tô bem feliz e todo mundo que trabalha comigo também. E como é um festival vamos para contribuir e aprender.
2+: É verdade que você gravou um clipe com o Ilê Aiyê, dirigido pelo baiano Ricardo Spencer?
Criolo: Sim, sim, fui convidado para participar de um projeto de valorização dos blocos afro, que visa apresentar ao Brasil essa história bonita deles. Fui convidado para cantar uma música e conhecer o Ilê, o que já foi uma grande honra para mim, até por que foi a primeira vez que fui lá no bairro da Liberdade. Fui convidado para cantar (a música) Mundo Negro, mas aí pensei: essa música já é tão especial, e a proposta é mostrar a beleza do Ilê, mas minha ideia era exaltar e homenagear o povo baiano, as pessoas envolvidas nesse história tão bonita. Achei que ninguém seria melhor do que os próprios músicos do Ilê para cantar essa música. Humildemente, compus uma musica em homenagem ao bloco e aí aconteceu dessa forma. A música aparece bem no começo do clipe.
2+: Você esperava toda essa repercussão para o Nó Na Orelha?
Criolo: Não mesmo, por que eu já estava me despedindo, já estava aí há 20 anos, e quando entrei no estúdio, a intenção era só um registro de canções pra mim, minha família e amigos. Mas no meio do caminho, percebemmos que havia algo ali que poderia ser partilhado. Jamais imaginei que ia dar isso tudo. Era um mero registro, jamais esperei tanto bochicho.
2+: Qual o seu balanço dessa primeira década de música on line?
Criolo: Eu acho que aumentaram as possibildade e a situações das pessoas terem contato com música. Se vc quiser pesquisar musica da Turquia, você só depende de ir na internet pesquisar. Encurtaram-se os espaços. Isso é grandioso.
2+: Depois de todo esse sucesso em 2011, quais seus planos para 2012? Disco novo, DVD ao vivo…?
Criolo: Muitas pessoas tem nos convidado para fazer shows, e é isso que vou fazer por enquanto. Nem consigo imaginar um segundo disco ainda. O Nó Na Orelha só tem sete meses, é muito recente, então não faço anda a mínima ideia do que vai acontecer. De verdade mesmo. O que eu posso dizer agora é que estu muito honrado com a forma como as pessoas tem me recebido aí na Bahia. Tenho muitos amigos baianos aqui em São Paulo e fico muito feliz com essa recepção tão calorosa.
DIGITÁLIA – PANORAMA DA PROGRAMAÇÃO:
Abertura: Hoje, no Teatro Vila Velha
• Mesa de abertura
• Conferência com DJ Spooky (a.k.a Paul Miller)
• Apresentação da Orkestra Rumpillezz (BA)
• Performance do DJ Psilosamples (MG)
Conferências, desconferências, oficinas, grupos de trabalhos e encontros de rede: ICBA, de 2 a 4 de fevereiro (nos três turnos)
• Gilberto Gil, Derrick de Kerckhove, Ronaldo Lemos, Volker Grassmuck, Allen
Bragfrede, Javier Bustamente etc.
• Palestra de Gilberto Gil: 03.02.12, às 17h, ICBA.
Pós-‐Tudo, 02.02, a partir das 13h: Digitalia na Festa de Iemanjá (DJ Set com
convidados)
ICBA, 3 e 4/02: Instalações e apresentações artísticas
Sunshine Bar, 03.02: Shows e performances
Praia dos Livros, 3 e 4/02: Lives, DJ Set etc.
Concha Acústica, 05.02
• Criolo
• Stomp Stage Experience
• Stank/Dolores
• Versu 2
No show da Concha Acústica, o ingresso deverá ser trocado por um livro de literatura, em bom estado de conservação. Local da troca: bilheterias do TCA.
Assista o cilpe do hit Subirodoistiozim, do Criolo:
SAIBA MAIS: Digitália.
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Fashion Rio: Walter Rodrigues, Agatha e Printing
postado por Pedro Fernandes @ 1:17 AMO tempo fechou no quarto dia de desfiles do Fashion Rio Inverno 2012. O primeiro foi o do Walter Rodrigues, que trouxe para a passarela mulheres presas em trajes luteranos inspirados no filme alemão A Fita Branca e nos personagens do fotógrafo alemão August Sander (1876-1964). “A elegância contida e a simplicidade das formas evocam um tempo de reflexão diante de todos os excessos que ocorrem na moda atual”, explica o estilista. Porém o resultado são roupas excessivamente formais que anulam completamente o corpo da mulher com suas formas amplas e comprimentos muito longos. Embora vermelhos e azuis tenham aparecido no final do desfile, as cores predominantes são o preto, o branco e o cinza. Excesso de austeridade também é excesso, Walter.
A Agatha também trouxe roupas pesadas em tricô, couro sintético, que parece estar em alta, e muito veludo, mas trabalha os volumes sempre na parte de cima do corpo, deixando pernas à mostra com saias e vestidos curtos, criando um visual mais equilibrado. Há muito preto e cinza, mas também cores mais abertas, como o branco, amarelo, vermelho e ocre, que vem se confirmando como a cor mais desejada para a próxima estação.
A marca que encerrou o dia foi a Printing, que mostrou formas e estampas geométricas e op art com espírito retrô. Os cortes são predominantemente simples e retos e as saias e vestidos são bem curtinhos. Em um segundo momento há também trabalhos em alfaiataria e outras referências masculinas como camisa polo com padronagem argile, mas trabalhada com paetês e canutilhos, para não abrir mão da feminilidade. Os materiais jogam com pesos e levezas nas sobreposições de lã a organza de seda ou crepe e as combinações de azul, laranja e preto são bastante acertadas. Apesar de simples, e em muitos momentos informal, a coleção é bem sofisticada.
Fashion Rio – Maria Bonita Extra, Espaço Fashion, New Order e Coca-Cola Clothing
postado por Pedro Fernandes @ 2:58 AMAo completar 21 anos a Maria Bonita Extra foi buscar inspiração em seu passado e revisitou tecidos, como os de gravataria, formas e estampas, em seu desfile da temporada de inverno 2012 do Fashion Rio. Aqui predominam cores primárias como o verde, o azul e o vermelho e efeitos metalizados. As cores aparecem normalmente nas estampas e padrões abstratos. Tecidos como organza, musseline de seda e tafetá são trabalhados à mão, criando texturas. As peças vêm mais estruturadas, com sainhas com ancas, balonês e tutus. As silhuetas são marcadas e os comprimentos curtíssimos.
Já a Espaço Fashion olhou para o Rio de Janeiro para compor sua próxima coleção. Dessa vez não para o mar, mas para a terra, como quem olha da baía para a cidade. Ela aparece em fotografias que viraram estampas em tecidos leves e fluidos como a musseline e o crepe de seda. As silhuetas também são ajustadas e os cortes são retos em vestidos e calças.
Pegando carona na onda sessentista que tomou conta da cultura pop a partir do seriado Mad Man, a New Ordr foi buscar no antigo glamour da aviação, a inspiração para sua linha de acessórios para a próxima estação. As roupas faziam lembraram aos trajes das aeromoças dos anos 1960, os sapatos a maioria anabelas e plataformas inspiradas nos Creepers da Prada, cheios de transparências e cores metálicas, fazem referência ao futurismo daqueles anos. As bolsas foi o que a marca trouxe de melhor. Elas brincaram com as formas de elementos relacionados a aviação como embalagens de lanches e travesseiros de pescoço.
Quem também resolveu voar foi a Coca-Cola Clothing, mas para um pouco mais longe, para o espaço sideral. A coleção traz tecidos tecnológicos, látex, couro e lã, todos com toque metalizado. Os looks vão do branco total à mistura de tons flúor. Apesar das jaquetas metalizadas parecerem meio óbvias quando o assunto é viagem espacial, foi bom ver a marca ousar um pouco e colocar na passarela alguns produtos que provavelmente não farão sucesso comercial. Merece destaque a estampa com imagens de galáxias e aurora boreal.
No segundo dia de Fashion Rio Inverno 2012 o mínimalismo vai se confirmando como a escolha dos profissionais de beleza para o próximo inverno. O maquiador da MAC John Stapleton, que fez a beleza da 2nd Floor, optou apenas por um leve tom de cinza e marrom nos olhos das modelos. Já Robert Estevão e Helder Rodrigues, que trabalharam para TNG e Melk Z-Da, respectivamente, coincidiram e usaram somente blushes em tom de terracota. Porém, o primeiro e deixou olhos e boca ao natural e o segundo usou os mesmos tons nos olhos, e trabalhou a boca com gloss rosinha.
Fashion Rio – 2nd Floor, TNG e Melk Z-Da
postado por Pedro Fernandes @ 2:58 AMQuem abriu o segundo dia de desfiles do Fashion Rio Inverno 2012 foi a marca 2nd Floor, espécie de segunda linha da Ellus, que veio com mais sofisticação do que o esperado para uma marca focada no varejo e no jeans wear. Especialmente pela quantidade de peles e couro de crocodilo falsos que aparecem em peças inteiras ou em detalhes. Entre verdes, pretos e azuis, laranjas e vermelhos quebram a seriedade de alguns looks. A marca não decidiu se quer um inverno de shapes ajustados e frescos, com jeans slim, camisa sem mangas e vestidinhos primaveris, ou volumosos e quentes, com casacos de pele e maxitricôs. Na dúvida, investiu em tudo e errou pouco.
Já a TNG fez exatamente o que se esperava dela, com um desfile bem comercial, com direto aos globais Carolina Dieckmann e Marcelo Serrado na passarela. Com toda essa preocupação com as vendas, não sobra espaço para experimentações, embora o feijão-com-arroz da grife tenha seu sabor. Os jeans, feitos com material reciclado de PET e sobras de tecidos, trazem lavagens manuais, com manchas tipo tye dye, e estampas produzidas com laser. No feminino, destaque para saias godês e babados, e no masculino, para ternos e calças de flanela xadrez.
Indo pelo caminho oposto do comercial, ou do pop, como alguns preferem chamar, o pernambucano Melk Z-Da, trouxe as texturas do barro para a passarela, com sua coleção que homenageia as bonequeiras de barro do Brasil, exalta o trabalho manual e o coloca como objeto de desejo fashion. A referência ao trabalho das bonequeiras fica aparente em alguns dos seus vestidos de algodão tratado com uma resina que registra os movimentos das mãos de quem a aplicou, nas aplicações de flores e miçangas de argila e nos fantásticos acessórios, que misturam a rusticidade o barro, com o brilho de pedras.
Se depender do primeiro dia de desfiles do Fashion Rio Inverno 2012, a próxima estação vai ser dos saltos anabela. Herchcovitch um derby, um oxford com menos detalhes, com um salto anabela em uma espécie de plástico fosco. A Cantão optou pela botinha monocromática e a Alessa, ficou com o tradicional salto de cortiça. Saindo um pouco desse modelo, mas ainda nas alturas, a Acquastudio propõe uma ankle boot em couro camurça com salto colorido e a Patachou foi para o lado oposto e deixou os pés a mostra com sandálias de tiras.
No primeiro dia de desfiles do Fashion Rio Inverno 2012, apesar de no inverno maquiagens mais fortes serem comuns, o estilo escolhido pela maioria dos estilistas e maquiadores foi o minimalista. Rosto lavado, ou com o mínimo de cor, foi a opção da Acquastudio, Herchcovitch, Alessa e Cantão. Apenas a Patachou investiu no batom escuro, mesmo assim escolheu um tom claro de marrom para o olho. Confiram na galeria abaixo a beleza dos cinco desfiles do dia 10/1.
Fashion Rio Inverno 2012 – Herchovitch, Alessa e Cantão
postado por Pedro Fernandes @ 1:53 AMQuem abriu a 20ª edição do Fashion Rio foi o desfile da marca de jeans wear do estilista Alexandre Herchcovitch. Para o seu inverno 2012 ele se inspirou nos artistas nova-iorquinos dos anos 1980, que habitavam o Soho, e transformando em lofts descolados seus decadentes galpões industriais.
A referência oitentista fica clara nos volumes das mangas e desproporções na silhueta (ampla nos ombros, mas marcada na cintura), porém sem cair no óbvio das ombreiras ou dos ombrinhos marcados à Balmain.
Os materiais ora estruturam, como jeans (com diversas lavagens e respingos de tintas), couro e a lã de carneiro falsa, ora tornam a silhueta fluida, como as rendas e transparências, que abrem espaço também para a sensualidade. Sem exageros, até porque se trata de um desfile marcadamente comercial, Herchcovitch mostou uma coleção moderna (não confundir com modernosa) e sofisticada (não confundir com afetada).
As cores são em sua maioria frias, pretos, cinzas, azuis e verdes. As estampas, quando aparecem, também pela discrição, com florais pequenos, camuflados e animal print. Além de grafismos que mencionam à obra de Basquiat, artista expressivo dos anos 1980.
Também merece destaque o desfile da Alessa. Diferente do que normalmente ela apresenta, essa coleção de inverno não trouxe tantos brilhos e excessos, embora seja bastante viva e colorida, com tons como o azul celeste, marinho, laranja e ocre.
Intitulada Céu na Terra, a estilista a desenvolveu a partir do trabalho de estamparia inspirada em plumas e tapetes persa. Digitalizados, os pontos de tapeçaria se transformam em pixels.
As modelagens fluidas e assimétricas em tecidos como o crepe de seda, quebram a simetria dos tapetes e as plumas dão um ar um tanto étnico às criações. As tranças usadas pelas modelos só reforçam essa sensação.
Já a Cantão terminou o dia fazendo o que se espera dela: um desfile regular, sem mostrar grande criatividade, mas com roupas que provocam desejo de consumo. Sem perder sua identidade jovem e vendável, a marca trouxe formas amplas e sobreposições, em materiais distintos como a lã, o couro e a seda.
Com o tino comercial em alta, a marca seguiu tendências internacionais como o look branco total que vem aparecendo nas semanas de moda no exterior, assim como outras produções monocromáticas, em cores como o azul royal e o vermelho .
Viviane Lessa: “As comidas baianas são sucesso entre os judeus”
postado por regina @ 11:59 PMPor Regina de Sá
São muitas as Marias brasileiras que ajudaram famílias judias a preservar suas raízes. No livro Cozinha Judaica da Maria, de Viviane Lessa e publicado pela Editora Alaúde, vamos conhecer 21 famílias e algumas belas histórias de vida e preservação os costumes e tradições à mesa. Nesta entrevista concedida pela autora, ela conta como foi que iniciou o trabalho de encontrar essas “Marias” e como o saber judaico incorporou ao dia a dia das cozinheiras, ao longo da convivência com essas mulheres.
Viviane, como foi que surgiu a ideia de fazer este livro?
Meu marido, Leo Steinbruch, tem duas Marias que estão há 50 anos na família dele. A Ana Maria foi sua segunda mãe, ajudou a criá-lo. E a Maria de Lourdes sempre foi uma grande cozinheira, não existia festa sem as comidas da Maria. As duas aprenderam a cozinhar com a avó dele, judia, vinda da Lituânia, e aprenderam muitos dos rituais com a família. Quando a avó morreu foram elas que preservaram a tradição dos jantares, foram elas que mantiveram os rituais, e a família reunida em torno deles. O Leo queria fazer um livro que as homenageasse, que mostrasse o encontro, como a tradição depende delas, como muitas comidas se transformaram em suas mãos. Ele foi vendo que muitas outras famílias tinham suas Marias e, como sou jornalista e trabalho com projetos culturais, ele me deu a missão de fazer um livro. Um desafio, já que não sou judia e não sei cozinhar, mas os encontros me encantaram.
E como é que você encontrou essas Marias?
No começo foi difícil, comecei a falar do livro para todos os judeus que conhecia. Perguntava se eles tinham alguma Maria, fiz um site, material de divulgação… Até que uma judia, a Rosa Chut, responsável pela pesquisa do livro e minha grande consultora, começou a me ajudar. Foi a partir daí que começaram a surgir as famílias e as histórias. No início do projeto a meta era a de encontrar 10 famílias. Fechamos o livro com a história de 21 e tivemos que parar, senão o livro não ia ter fim (risos!). Foram dois anos de produção.
Qual o fato mais curioso que você apontaria das histórias que vc encontrou nessas mulheres e, por consequência, nas famílias que as abraçaram?
O mais curioso e emocionante é que as historias simplesmente começam na cozinha e vão para muito mais longe, realmente as culturas se misturaram. Judia e Maria passaram a fazer parte da vida uma da outra, era judia indo na igreja, Maria indo na sinagoga; Maria aprendendo a fazer vatapá kosher para servir para a família judia, e fazendo varenikes na sua casa para sua família; Maria acendendo vela de shabat para preservar a tradição de uma família de cultura tão diferente e que passou a ser sua também.
É fato que muitas receitas sobrevivem graças às tradições, ao fato de as matriarcas passarem para as filhas (os) os conhecimento da cozinha. No caso, quando duas culturas se encontram, como você vê essa preservação do conhecimento oral?
Essa é a riqueza da história oral, ela se transforma, é dinâmica! A tradição culinária chegou no Brasil com estas imigrantes judias, que tiveram que transformar o que sabiam à realidade local, ao clima, aos ingredientes, ao passar para as Marias houve novas adaptações, elas acabaram se tornando detentoras deste conhecimento, a medida que as novas gerações querem resgatar a tradição das avós isso vem cheio de influências, mas a essência não se perdeu, ela está ali.
Qual a receita que as ‘Marias’ do livro disseram que você encontrou como ponto em comum (quero dizer, em toda casa judaica não pode faltar)?
Tem uma Maria, a Andreia Martins, que me disse que o segredo dela era cebola para a comida askenazi (judeus vindos da Europa) e carne moída para a comida sefaradi (judeus vindos do Oriente). Mas o que mais encontrei em comum foi mesmo o gefilte fish para os askenazis e o cuscuz para os sefaradis.
E sobre a culinária baiana nas famílias judaicas? Alguma curiosidade?
Todos adoram arroz com feijão, adoram feijoada. O Dan Stulbach (ator) adora o tutu de feijão da Maria dele, e ela adora comida judaica. O marido da Clara Kochen adorava comida mineira, mas só comia em restaurantes típicos, ate que passou a ter uma Maria mineira e passou a se deliciar. As comidas baianas são sucesso entre os judeus, e entram até nas casas kosher (lei dietética que não permite que comam frutos do mar), neste caso aconteceram as curiosas adaptações como o vatapá kosher criado pela Hildete, uma Maria baiana. Na casa da Andrea Calina a comida baiana divide a mesa com a comida judaica. Ah, e algo que caiu no gosto de todos e foi incorporado às comidas judaicas – a pimenta!
Dentro da cultura judaica, ainda é costume, no corre-corre diário, reunir a família para grandes ceias? No livro, entendemos que, graças a essas ‘marias’, muitos costumes à mesa estão hoje preservados. Que lição os jovens das famílias judaicas podem tirar a esse respeito?
Sentar-se em torno da mesa com a família reunida e os pratos que os fazem lembrar de suas histórias é algo muito importante e valorizado pelos judeus. A maioria se reúne no Shabat e nas festas religiosas. A comida é muito simbólica, bastante representativa, e isso tem muita beleza. Parece-me que os jovens crescem vendo isso, e dão muito valor. Apesar de a nova geração não ter tanto interesse em cozinhar, acabam por valorizar essas Marias que põe na mesa os sabores de seus antepassados.
Receitas do livro:
Essekfleish, ou carne agridoce (prato principal) Rendimento: 10 porções
3 kg de músculo cortado em cubos / 2 cebolas grandes cortadas em fatias
1½ kg de tomate bem maduro / 2 folhas grandes de louro
3 ou 4 limões médios / 2 ou 3 colheres (sopa) de açúcar
1 colher (sopa) de sal / 1 colher (chá) de pimenta-do-reino em pó
1 colher (chá) de cominho (opcional)
1 Cozinhe os tomates com a casca, bata-os no liquidificador, passe na peneira e reserve. 2 Tempere a carne com o sal, a pimenta e o cominho.
3 Coloque para cozinhar junto com as folhas de louro e complete com água. 4 Quando a carne estiver bem mole, desligue o forno e esprema nela os limões.
5 Acrescente o molho de tomate e o açúcar. Prove e acerte o tempero se necessário. 6 Sirva quente com batatas cozidas, purê ou arroz.
Compota de frutas secas (sobremesa)
Rendimento: 10 porções
200 g de maçã seca / 200 g de uvas-passas
200 g de pera seca / 200 g de abacaxi seco
200 g de damasco seco / 200 g de ameixa seca sem caroço
200 g de nozes / 1 vidro de cereja em calda
suco de 1 limão / 4 colheres (sopa) de açúcar
2 colheres (sopa) de rum
1 Deixe as frutas secas de molho em água por 2 minutos e escorra. 2 Coloque as frutas numa panela (a maçã por último) e cubra com água. 3 Adicione o suco do limão, o açúcar e o rum e leve ao fogo por 10 minutos. As frutas não podem desmanchar. 4 Desligue o fogo e deixe a panela tampada. Depois de esfriar, retire algumas maçãs (as mais bonitas) e reserve. 5 Despeje as frutas restantes em uma travessa de vidro ou cristal e arrume por cima as maçãs reservadas, finalizando com uma cereja no centro de cada rodela
de maçã.
Essa decoração foi ideia da Ana. A compota sempre foi a sobremesa de todas as festas na casa dos Steinbruch. Até a filha de dona Branca, que não sabia cozinhar, fazia. “A dona Dziana gostava de fazer com adoçante para não engordar, mas a gente dizia que era com açúcar e todos comiam”, entrega Ana.

























































